Acho que esta introdução é até injusta, já que não posso falar de Carnaval sem adentrar na temática da cultura pernambucana. Por que iniciar justamente com uma música de Chico, e não com um frevo, uma loa qualquer de lá, onde o mar bebe o Capibaribe...? Bem, essa injustiça será compensada mais adiante. Antes de mais nada, preciso falar dos meus sentimentos - gritar na prosa, ao menos, pois o carnaval ainda não chegou. Imagino que o grito em prosa também tenha algo de libertador; afinal, é um grito que não se esvai em ondas pelo espaço, é um grito com alguma permanência.
Grande parte dos conhecidos, principalmente os não-pernambucanos, estranham o que acreditam ser uma exacerbada animação minha em reação ao Carnaval e suas manifestações. Eis a grande revelação: não é animação. É identidade, é intensidade, impulso, sensação, vivência permeada de cheiros e sons... É a espera de um ano para o reencontro com algo que minha essência contempla... Mas não basta um Carnaval qualquer; reafirmo que guarda relação com identidade, e minha identidade é pernambucana. O Carnaval é um reencontro, e por isso me guardo todos os anos pra quando o Carnaval chegar; por isso louvo a Chico novamente, por poder fazer minhas as suas palavras.

Volto os olhos agora aos Carnavais da menina dos olhos do mar e da cidade patrimônio, as comemorações da terra do frevo e do maracatu. A admiração, a identificação com a cultura pernambucana, especialmente com a cultura do povo - a cultura popular produzida pelo povo, com raízes fincadas nesse terreno, mas sempre em mutação, transfigurando-se - é algo que apreendi de modo espontâneo. Uma busca nascida sem influências marcantes; despertou como uma paixão surgida de algo totalmente desconhecido. Busquei esse amor sozinha, fui levada por uma fascinação inexplicável. Não brinquei muitos Carnavais na infância, não tenho pais foliões, não tive aulas sobre o significado dessas manifestações no colégio. Não sei como começou, mas a entrega foi total e definitiva, o que é um tanto incomum no caso de pessoas relativamente racionais (como considero ser?)...
Desde que iniciei meus dias de foliã, só estive longe de Pernambuco em um único Carnaval. Confesso que a experiência não foi prazerosa. Minha memória afetiva guardava todas as sensações. Os tambores ainda martelavam e trovoavam em meus ouvidos, sua ausência pesava em meus ombros. Os agbês e xequerês bailavam em meus pensamentos, em seu arrastar initerrupto de miçangas. Mãos atadas em cirandas praieiras a dar voltas e mais voltas, ágeis caboclinhos passeando pelas ruas. Caboclos de lança enebriados de azougue - acho que sua pólvora implodia em meu peito, entre o caótico badalar de sinos... Retalhos de lembranças, mais coloridas que fuxicos numa manta sem fim.
Exagero? É, um exagero sincero e perfeitamente compreensível... Mas acho que no Carnaval tudo é exagero. Alegria vira êxtase, transcender para uma realidade nova e repleta de possibilidades... O sol que ilumina as ladeiras de Olinda ao som dos clarins de Momo parece mais brilhante... E finalmente o frevo pode tomar conta das ruas, o ritmo mais refinado e mais popular que conheço. Num eterno diálogo de graves e agudos, de metais que ecoam pela cidade alta, o frevo de rua e o frevo canção emprestam o tom vivaz à festa de Olinda; logo mais, o frevo de bloco pede passagem nas ruas do Antigo, do Recife de tantos Carnavais, e a nostalgia é cantada pelos femininos coros acompanhados dos paus e cordas.

O cenário eclético e aparentemente desconexo do Carnaval pernambucano, expresso numa descrição abstrata - como a presente -, não induz o leitor à compreensão do sentimento de pertinência, da real conexão estabelecida entre mim e cada elemento carnavalístico. Aliás, gosto dessa expressão que adotei recentemente, 'carnavalístico'. Creio que não exista em dicionários, mas me sai mais natural que o termo 'carnavalesco'. Talvez pela conotação tomada por este último, ou talvez por implicância minha, ou por algum tipo de senso de inovação cômico-lúdica... Bem, uso aqui o 'carnavalístico'. Fechando esse parêntesis, prossigo: a conexão carnavalística é intensa e sinestésica, absorve, consome, envolve todos os sentidos. Vez ou outra, surpreende-me a consciência de estar participando de uma experiência plena. Sendo assim, é natural que muitos desses momentos carnavalísticos sejam marcantes e inesquecíveis... O amanhecer no Marco Zero, ao som de um bom samba é um deles. Conversas sobre a teoria do frevo na Praça do Arsenal também compõem belas lembranças. Arrastões percussivos, muitos, e a sensação de estar em meio à bateria, um sentimento de unicidade entre som, corpo e instrumento, ou melhor, entre vários instrumentos que preenchem e criam vazios sonoros. A preparação de fantasias para prévias e Olinda, a criatividade e graça de tantas vestimentas momescas. Os olhares, e tantos outros gestos compartilhados...
Não sei como concluir esse post. Não há um significado, uma simbologia delineada do Carnaval para mim... Concluo com reticências.
Recomendação de Carnaval:
Passei meu último carnaval em São Luís do Paraitinga-SP - cidade muito interessante para passar o carnaval - que, para muitos, nada mais é do que uma imitação de Olinda, ou do que fora Olinda há alguns - com a única observação de que não há maracatu, só marchinhas.
ResponderExcluirÉ uma ótima recomendação para as pessoas que moram em São Paulo e não pretendem ir pra muito longe brincar carnaval.
Infelizmente, esta cidade foi destruída pelas chuvas do final do ano passado (e deve ter sido ainda mais castigada pelas chuvas diárias deste ano).
Isso tudo foi pra dizer que eu percebi, nesse último carnaval, o quanto gosto do carnaval pelo carnaval, diferentemente de muitos amigos meus que gostam do carnaval pela... (desculpa a palavra, mas é a mais apropriada) PEGAÇÃO!
Certamente o meu interesse pelos elementos carnavalísticos é bem menor do que o seu, sra. blogueira! Contudo, é bom descobrir que o mundo ainda não está tão perdido!
É muito bom! Te encontro em Pernambuco em breve, pra aproveitarmos o carnaval pelo carnaval!
ResponderExcluirProfessorinha...Pernambuco, Recife Antigo, as ladeiras de Olinda e eu, lógico, te esperamos em breve...muito em breve
ResponderExcluirSilvia