quarta-feira, 26 de maio de 2010

Ansiedade (cont.)

Hoje é meu último dia em Maputo! Quero muito voltar a Brasília e montar meu apartamento. Daqui a pouco, deixarei a Embaixada e darei a última volta na cidade. À noite, mais despedidas. Amanhã, meu coração estará apertado, certamente, mas feliz!

Decidi hoje (por enquanto) que vou estudar. Ainda tenho certo receio em afirmar que quero estudar para diplomacia. Ainda não sei até onde chegarei nisso. Mas a vontade surgiu e tem crescido, quem sabe se concretiza. Seriam anos de estudo, com certeza. Ainda tenho dúvidas, não seria melhor o MPOG? Muitas coisas passam pela minha cabeça agora, sinto que um novo ciclo irá começar... Até aqui, consegui superar muita coisa, superei alguns limites. A superação está só começando.

Há uma música de Lula Queiroga que diz que a felicidade é higiene mental. Estou de alma lavada!

O Habitat da Felicidade
Lula Queiroga
Composição: Lula Queiroga / Lucky Luciano

Morava numa caverna/ escrevia nas paredes
Morava no mar vermelho/ escrevia numa pedra
Morava num palacete/ escrevia num papiro
Morava numa palafita/ escrevia num bilhete
Morava numa oca/ escrevia com fumaça
Morava num sobrado/ esrevia num caderno
Morava no inferno/ escrevia via fax
Morava num viaduto/ escrevia com sotaque
Morava numa favela/ escrevi uma canção prá ela
Que dizia assim

Felicidade não precisa de culpa
Felicidade é o alívio da dor
Felicidade é higiene mental
Exercício da alma
Só alguém
Que na vida tanto sofreu
Todo tipo de dor
Sabe dar valor
Aos caprichos da felicidade

Felicidade não precisa de culpa
Felicidade é fome de amor
Felicidade é a temperatura
Da febre que eu sinto
Eu sei
Que amanhã pode ser tarde
Prá recuperar
O tempo que eu passo
Sonhando acordado
Com a felicidade

Felicidade não precisa de culpa

terça-feira, 25 de maio de 2010

Ansiedade

s.f. Angústia, aflição, grande inquietude. / Desejo veemente, impaciência, sofreguidão, avidez. / Medicina: Estado psíquico acompanhado de excitação ou de inibição, que comporta uma sensação de constrição da garganta (Aurélio Online, 25/05/2010).


Apenas dois dias para voltar ao Brasil. Sinto uma ansiedade boa, faço projetos, despeço-me das saudades de lá e me preparo para as saudades de cá. A antiga ansiedade, indefinível e indesejável, passou por ora; sinto-me feliz na presença de sua versão normal, cotidiana.

Faço planos: brincar de casinha em minha nova casinha, voltar a estudar se a coragem deixar, costurar, tocar violão. Aprender, viver. Quem sabe, um dia, voltar...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Maningue nice!

WTF, você deve estar pensando! Explico: maningue é a palavra utilizada por aqui para exprimir intensidade. Nice, a mania de usar termos em inglês, mesmo existindo equivalente em português. Entrei no clima e iniciei meu texto com um belo WTF, portanto.

Moçambique tem suas peculiaridades, claro. Quem diria, a famosa camisinha aqui se chama jeito. Imagino a quantidade de piadas dúbias que isso originaria se fosse no Brasil. Van de transporte alternativo é chapa - não, não é o termo vulgar para certos aparelhos ortodônticos. Mas eu, particularmente, não me arrisco nas chapas: muito aperto e perfume intenso. Além do táxi, tenho a alternativa do tuc tuc, aquele que os indianos pegavam naquela novela global... Na verdade, não há muita opção de transporte público, a gente se vira como pode entre caronas e táxi...

Nas feiras, é preciso paciência. Na feira do pau, inúmeros vendedores buscam atenção dos "amigos brasileiros", alegando que seu artesanato é baratinho - nunca é, se o amigo não barganhar. Enquanto fala-se com um, outros dez estão à volta, tentando chamar atenção. Enchendo o saco mesmo. Ah, outra mania dos moçambicanos é chamar as pessoas de pai e mãe. Estranho, um negão com o dobro da minha idade me chamando de mãe... Enfim, a feira é abarrotada de madeira preta e sândalo, osso e marfim, capulanas e seus derivados, artigos em palha e bijouterias em materiais típicos, tudo estendido em esteiras no chão. Uma boa opção de turismo de compras pra quem é perseverante e paciente.

As capulanas estão por toda parte. Mulheres envoltas em panos coloridos feitos de saias, ou carregando seus bebês com os mesmos tecidos amarrados na frente ou nas costas, como um pequeno embrulho com a cabeça de fora. Comprei dezenas, minha costureira me aguarde.

As prateleiras de supermercados estão cheias de produtos importados, inclusive brasileiros. Há supermercados grandes e bem supridos, mas por vezes falta algo mais nobre, como uma lata de leite condensado que preste. E as bebidas... Ice é spin, a marca da cerveja é Laurentina. Essas não têm faltado.

Maputo está muito bem servida de restaurantes. Camarões são oferecidos em diferentes tamanhos, junto a outros mariscos (aqui, frutos do mar são considerados todos mariscos). Carnes também não faltam, tudo a preços bem convidativos. A moeda local, o metical, pode render bem se a propensão a gastar for baixa. Moradia, por outro lado, é cara. Ainda bem que não me preocupo com isso. Deixo pra me preocupar com meu lazer, muito mais importante. Por exemplo, além dos restaurantes, há casas noturnas - a maioria simples, mas oferecendo boa diversão quando a trupe é maningue nice. Domingo passado, resolvi me arriscar e ir a um show da Marrom no Coconuts bar.

O lugar é bem legal, mas no show... Aperto e calor, graças a Deus não sofremos com perfumes fortes. Mas o aperto e o calor... Casa lotada - afinal, show de brasileiro é evento por aqui! Mais uma confissão no blogue: para mim, as melhores canções que ela cantou foram as de Cartola e Nelson Cavaquinho. Na saída, um sapo gigante, até agora não entendi o porquê...

Brasileiros, há milhares em Moçambique. Missionários, então, nem se fala. Fora isso, a turma da Vale, da Odebrecht, da Camargo... Meus conterrâneos de país são facilmente identificávis, tá na cara. E nossa música é muito apreciada por aqui. Confissão novamente: não busquei muito da música moçambicana, já que tenho ouvido no rádio algo raro, não sei se pop ou brega. Mas fui a um pequeno show muito bacana, com vocalista espanhola (portanto, não sei se posso considerar música moçambicana). Pena que havia aproximadamente dez pessoas no público, contando comigo.

Espero que tenha conseguido resumir um pouco da minha experiência em Moçambique, e das curiosidades que vi nessas terras. Como sempre, muito bom aprender com as diferenças. Fotos serão adicionadas nesse post, em breve!

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O trabalho dignifica...

Quando me preparava para o vestibular, a long time ago, já tinha certeza do curso que desejava fazer. Fiz Turismo, encantei-me com as possibilidades. Mas já no meio do curso, ficaram claras as restrições que o mercado de trabalho impunham, portanto decidi complementar minha formação com o curso de Administração, que deveria proporcionar maior amplitude de possibilidades de inserção profissional. Bem, de lá pra cá, passei pela organização de eventos, por empresa multinacional em vários áreas - como qualidade comercial, marketing, processos -, resolvi fazer um Mestrado em Marketing Internacional, tentei me alocar através de dez mil processos seletivos para Trainees, mas nada deu muito certo. Meus paradigmas me cegavam até então, já que não via como possibilidade de trabalho a administração pública. Sorte minha que a necessidade se sobrepôs à vontade.

Aqui estou eu, trabalhando num Ministério, ganhando a conta pra pagar as contas. Nada mal, considerando minha situação pré-concursística. Confesso que, às vezes, um gostinho um tanto amargo me vem à boca. Seria interessante realizar algo, atuar com propósitos maiores que a confirmação de recebimento de uma mensagem de e-mail. Estudei muito, e nem sempre por gosto, então é natural certa revolta por atender telefones, ouvir solicitações e reclamações descabidas, lidar com pessoas despreparadas, seguir uma rotina burocrática todo santo dia. Por outro lado, de que adiantaria realizar algo, se para isso tivesse que trabalhar de domingo a domingo, sem descanso, abdicando da vida pessoal e ganhando muito menos... Estou satisfeita. Por enquanto. Mas uma coisa é certa: não pretendo sair do setor público, não mesmo.

O estudo não será à toa, há outras provas para cargos ainda melhores. É questão de tempo. Enquanto isso, tenho aproveitado tudo o que este cargo me proporciona, e sinto que sou, sim, privilegiada. Afinal, foi o trabalho que me trouxe a Maputo, o trabalho que me levou ao encontro de pessoas queridas aqui e em Brasília, e me abriu os olhos para o quão longe posso chegar. O processo de mudança foi duro, mas estou aqui, de peito aberto; continuo com força e coragem pra seguir adiante e provar o que a vida tem a me oferecer.

A propósito, escrevo este post do trabalho.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Para bom entendedor

No fim de semana passado, revi a versão cinematográfica de "Ele não está tão a fim de você". Sempre tenho a mesma sensação quando assisto a esse filme: "Óbvio!" Seria ótimo se conseguíssemos ler o mundo sem envolvimento, claramente, mais ou menos como quando assistimos a um filme.... O que não é possível, nem quando assistimos a um filme.

O menor gesto, qualquer palavra, pode assumir um grande significado. Buscar entedimento complica, dificulta, muitas vezes desnecessariamente. As interpretações desviam-se dos fatos, a depender dos olhos do leitor, dos ouvidos do ouvinte. Uma palavra excede seu sentido, um beijo é minimizado em suas intenções... Ler a vida é difícil mesmo. Para mim, ouvinte em essência, ler é ainda mais complicado. O que quero dizer é que acho que meu código, ou o meio escolhido, ou não sei o quê, diverge dos de outras pessoas. Ouvir é, para mim, sentir. Como então me fazer entender? Paciência; ler o mundo, principalmente ouvir o mundo, é vital para mim.

Fonte: lamartha.wordpress.com

Penso no que ando lendo por aí... Às vezes, Maputo parece a continuação da leitura de um livro antigo. Ou sou eu quem escreve sempre a mesma estória - provável. Acho que ainda tenho que trabalhar alguns capítulos, apesar desta aventura já me ter levado a tantas descobertas e emoções. Sou meio errante, meio nômade. Tentei evitar, mas o destino, a providência divina, o acaso, há algo que me empurra mais e mais, e sempre corro mundo. E me apaixono pelas conquistas, e penso nas próximas. O que falta está por vir em breve, sinto isso.

Este blogue não é uma tentativa de me fazer entender, é mais um teaser. Talvez, o que queira é saber o que as outras pessoas entendem com aquilo que escrevo para, assim, compreender as possíveis reações a minhas ações. Sou curiosa. Pretendo conhecer reações que podem nunca ter passado em minha mente, inclusive as desagradáveis. Apre(e)nder novos significados. Portanto, não divulgo o sítio. Contraditório? Não, quero reações de quem leia (ou ouça), de quem interprete, não de transeuntes ocasionais. Se não houver reação, vale para que eu releia minhas palavras, para reinterpretar meus pensamentos. Aos amigos queridos, que sempre entendem, complementam, contrariam e renovam minhas convicções, faço um apelo: continuem reagindo. E agindo, quero seu som ao pé do ouvido. Saudades transoceânicas.

Por falar em claves de sol...

Som da vez: Volver.

Recomendação: Portal Pernambuco Nação Cultural, com conteúdo em áudio, vídeo e mais.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Tique Taque

"E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo"


O tempo é uma obviedade, cantada e escrita por tantos melhores que eu. Cantar o passado, ou o futuro, ou os sentimentos presentes, nada mais óbvio.

Percebi hoje que meu canto diário ignora a linearidade do tempo. O canto como o entendo, como vida. Meu canto diário é intenso, absorve tudo o que é possível ser, é entrega. Mesmo quando relutante, é entrega. Mas o desejo de absorver tudo é tão imenso que o passado e o futuro acompanham meu canto - melodia alegre, por vezes esperançosa e ansiosa, nunca nostálgica. Meu passado é saudades, meu futuro é vontade. Passado, presente e futuro são personificados, povoados pelas pessoas de minha vida, homens e mulheres de minha vida.

"Saudade, o som do tempo que ressoa..."


Não sinto falta de uma máquina do tempo, que me leve a algum momento de meu passado. Bem me agradaria viver outras épocas, mais como parte do desejo de experimentar as diferenças, especificidades de tempos passados. Mas não tenho nostalgias relativas a meu passado. Amo meu presente e a forma como vivo, com meus erros e acertos. Mas sinto sempre saudades, saudades das pessoas. Vivo cada dia desfrutando, e imaginando como as pessoas de minha vida reagiriam se vivessem esses momentos ao meu lado. E quanto mais desejo viver, com a intensidade possível, mas desejo momentos vindouros, mais o futuro se faz presente. Portanto, vivo no presente, no passado e no futuro, doce e amargamente solta no tempo, circular.

No final, dá tudo igual; se o círculo é uma linha, o tempo toma a forma que minha alma quiser...

"Meu tempo é quando."


Sugestão da vez (mais uma vez): Bethânia, em Tempo Tempo Tempo Tempo, e com Lenine em Saudade.
http://www.youtube.com/watch?v=O2P1khIyTX8&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=n-OVoNhkVKg&feature=related

Sugestão fora de hora (o passado se fez presente, de forma irresistível): Nelson Cavaquinho, Juízo Final.
http://www.youtube.com/watch?v=rgcTGJQNNe8&feature=related