sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Os Homens de Chico

Um grande amigo prometeu-me, certa vez, escrever um artigo sobre mulheres fãs de Chico. O mesmo amigo com o qual compartilho afinidades musicais, incertezas, saudades, e tantas outras coisas, seguindo numa extensa lista - portanto, páro antes de me tornar enfadonha. Aguardei o artigo e, tardando ele a produzir tal texto (o qual seria, certamente, interessantíssimo, dado o perfil do 'autor em potencial'), decidi então escrever eu mesma sobre o tema. O engraçado é que algo desviou-me do objeto principal do tema, as fãs de Chico. Talvez porque imagino que meu amigo, que nem ao menos lembra da promessa, usaria argumentos muito mais convincentes que os meus... Até mesmo porque, sendo eu uma fã de Chico, devo ter uma visão tendenciosa sobre mim mesma... O fato é que o título desse post deveria ser "As mulheres de Chico", mas enquanto digitava, veio a minha mente uma estranha clareza de que escrever sobre os homens de Chico seria mais coerente, não sei ao certo o porquê...



Incontestável a sensibilidade do Buarque, a capacidade de se colocar na posição de uma mulher, com sentimentos e reações femininos, permanecendo, entretanto, um sutil mas irresistível sedutor aos olhos das mulheres. O amigo onipresente em meus testemunhos reforçou essa minha opinião, numa discussão num bar em Olinda, sob o céu estrelado e ao som do Buarque, tomando canas enfeitadas de aromas mil... Discutíamos a letra de "Olhos nos Olhos", discordando dos laços afetivos que, segundo ele, ainda prenderiam aquela mulher ao seu antigo romance. A questão que meu amigo apresentava era: o que impulsionava a mulher a prestar satisfações ao homem, se ela estava 'bem demais'? O quanto estaria ela realmente bem? Concluí que Chico compreende, mas nem todos os homens o conseguem (perdão, meu caro amigo, reconheço sua sabedoria em diversos campos, mas nesse caso sinto que não pôde ler o que passa na alma daquela mulher)...

Bem, seguindo com o raciocínio, creio que um pouco menos comentada, apesar de explícita, é a perspectiva dos homens cantados pelo poeta. A desilusão da moça que quis morrer de ciúmes e quase enlouqueceu é frequentemente lembrada. O causador da desilusão, quem sabe, um homem áspero, indiferente, inconstante ou de pouca confiança... Como tantos outros homens de Chico, de vida vazia e vadia, que param em bares a cada esquina e exalam perfume de cachaça e suor, entre risos e mentiras...

Mas os homens de Chico também têm desilusões, falsos grandes amores, planos e anos roubados por moças que se revelam diferentes. Também são homens reais, guris cotidianos, trabalhadores, mambembes aguardando o Carnaval chegar. Alguns são confiantes, malandros, disputados por suas meninas, e sem ter a quem prestar satisfação, viu?... Apaixonam-se, chamam em silêncio, buscam princesas para coroar, esperam seus amores - uns doentes de tanta saudade, outros sem se afobar...

Para um homem, conseguir compreender a lógica feminina é improvável. Não seguirei a tese de que somos complicadas, não se trata disso. A barreira vem dos sentimentos contrastantes, das expectativas distintas. O que me instiga é como o poeta transita entre esses dois universos, com propriedade e coerência. Aceito e concordo, Chico é diferente de outros compositores por conseguir sentir como ninguém o que sentem as mulheres. Mas os homens de Chico, ah..., o que seriam das mulheres sem eles?

6 comentários:

  1. Bravo! Eu poderia me prostrar em elogios à postagem inaugural de "Barulhos cotidianos", mas, por mais entusiasmado que esteja, prefiro esperar cenas dos próximos capítulos. Assim, quem sabe, você não se acomode nem deixe o sucesso subir ao cabeçote. Gostei muito do estilo e do tratamento do tema. Muito bem lembrado: pouco se fala dos homens de Chico. Você se lembrou de Nicanor, quando escreveu este texto? Bem, fico no aguardo das outras publicações, para abrir minha caixinha de elogios. Eis o endereço de meu blogue: http://cadernospublicospessoais.zip.net Xero!

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  2. oi, panorâmica.

    nem vou falar em carapuças, mas cabe defesa =)

    não discordei do sentimento da moça, mas da propriedade de sentir-se assim, argumento que valeu para todos nós e não só para vocês. na música a frase é ótima, catártica, já senti também, estou sentindo agora, por exemplo. o que você não percebeu é que, naquela noite, saí da música e entrei na ética, desvio que, pelo visto, se perdeu no gole de alguma cachaça de canela.

    recuperando um argumento antigo, não é que o Chico entenda melhor as mulheres, é que não tem vergonha de adoçar-lhes a bile um verso por vez ;)

    bjoca pra tu e, bem, vou escrever o post devido um dia desses =)

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  3. Cinema,

    Espero que o post saia em breve! Quanto a seus argumentos, continuaremos a conversa oportunamente... Regada a cana caiana, preferivelmente! ;)

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  4. Como não participei desse debate ´olhos nos olhos´, tive um pouco de dificuldade de entender o post.
    Se o objeto de discussão era se a mulher de Chico da cantiga de ´olhos nos olhos´ ainda gosta do homem de Chico da mesma canção, acho que essa discussão não gera dúvida quando ela diz: "Quando talvez precisar de mim
    Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim".
    O que, juntando com o fato de ela dar satisfações a ele, retira qualquer dúvida.
    Ouvindo esta canção com calma dá a sensação de que, para aquela mulher, aquele casal poderia ser muito feliz, mas como ele a deixou, ela seguiu a vida dela e foi feliz mesmo sem ele.
    É uma música bem realista, no meu entender, pois significa que uma pessoa não depende de outra assim como precisamos do ar pra respirar!
    É como se, naquela música, ela deixasse claro que está bem, ´refeita´ (como classificou) e até mais bonita - mas ela continua vivendo com a certeza de que seria feliz do lado dele, e, ao mesmo tempo, relativamente decepcionada por ele não sentir o mesmo!

    Falei (escrevi) alguma besteira???

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  5. Nenhuma besteira, mas confesso que minha interpretação é outra. Acho que ela usa da ironia pra se mostrar superior, e acho que as satisfações são um pretexto pra um desabafo, pra 'alfinetar' o cara, pra fazer com que ele sinta o que ela já sentiu um dia... Bem, isso levaria a outro post, vamos deixar pra uma próxima conversa etílica... ;)

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