
Incontestável a sensibilidade do Buarque, a capacidade de se colocar na posição de uma mulher, com sentimentos e reações femininos, permanecendo, entretanto, um sutil mas irresistível sedutor aos olhos das mulheres. O amigo onipresente em meus testemunhos reforçou essa minha opinião, numa discussão num bar em Olinda, sob o céu estrelado e ao som do Buarque, tomando canas enfeitadas de aromas mil... Discutíamos a letra de "Olhos nos Olhos", discordando dos laços afetivos que, segundo ele, ainda prenderiam aquela mulher ao seu antigo romance. A questão que meu amigo apresentava era: o que impulsionava a mulher a prestar satisfações ao homem, se ela estava 'bem demais'? O quanto estaria ela realmente bem? Concluí que Chico compreende, mas nem todos os homens o conseguem (perdão, meu caro amigo, reconheço sua sabedoria em diversos campos, mas nesse caso sinto que não pôde ler o que passa na alma daquela mulher)...
Bem, seguindo com o raciocínio, creio que um pouco menos comentada, apesar de explícita, é a perspectiva dos homens cantados pelo poeta. A desilusão da moça que quis morrer de ciúmes e quase enlouqueceu é frequentemente lembrada. O causador da desilusão, quem sabe, um homem áspero, indiferente, inconstante ou de pouca confiança... Como tantos outros homens de Chico, de vida vazia e vadia, que param em bares a cada esquina e exalam perfume de cachaça e suor, entre risos e mentiras...
Mas os homens de Chico também têm desilusões, falsos grandes amores, planos e anos roubados por moças que se revelam diferentes. Também são homens reais, guris cotidianos, trabalhadores, mambembes aguardando o Carnaval chegar. Alguns são confiantes, malandros, disputados por suas meninas, e sem ter a quem prestar satisfação, viu?... Apaixonam-se, chamam em silêncio, buscam princesas para coroar, esperam seus amores - uns doentes de tanta saudade, outros sem se afobar...
Para um homem, conseguir compreender a lógica feminina é improvável. Não seguirei a tese de que somos complicadas, não se trata disso. A barreira vem dos sentimentos contrastantes, das expectativas distintas. O que me instiga é como o poeta transita entre esses dois universos, com propriedade e coerência. Aceito e concordo, Chico é diferente de outros compositores por conseguir sentir como ninguém o que sentem as mulheres. Mas os homens de Chico, ah..., o que seriam das mulheres sem eles?
Bravo! Eu poderia me prostrar em elogios à postagem inaugural de "Barulhos cotidianos", mas, por mais entusiasmado que esteja, prefiro esperar cenas dos próximos capítulos. Assim, quem sabe, você não se acomode nem deixe o sucesso subir ao cabeçote. Gostei muito do estilo e do tratamento do tema. Muito bem lembrado: pouco se fala dos homens de Chico. Você se lembrou de Nicanor, quando escreveu este texto? Bem, fico no aguardo das outras publicações, para abrir minha caixinha de elogios. Eis o endereço de meu blogue: http://cadernospublicospessoais.zip.net Xero!
ResponderExcluiroi, panorâmica.
ResponderExcluirnem vou falar em carapuças, mas cabe defesa =)
não discordei do sentimento da moça, mas da propriedade de sentir-se assim, argumento que valeu para todos nós e não só para vocês. na música a frase é ótima, catártica, já senti também, estou sentindo agora, por exemplo. o que você não percebeu é que, naquela noite, saí da música e entrei na ética, desvio que, pelo visto, se perdeu no gole de alguma cachaça de canela.
recuperando um argumento antigo, não é que o Chico entenda melhor as mulheres, é que não tem vergonha de adoçar-lhes a bile um verso por vez ;)
bjoca pra tu e, bem, vou escrever o post devido um dia desses =)
Cinema,
ResponderExcluirEspero que o post saia em breve! Quanto a seus argumentos, continuaremos a conversa oportunamente... Regada a cana caiana, preferivelmente! ;)
ah, esses motores flex...
ResponderExcluir=)
bjoca
Como não participei desse debate ´olhos nos olhos´, tive um pouco de dificuldade de entender o post.
ResponderExcluirSe o objeto de discussão era se a mulher de Chico da cantiga de ´olhos nos olhos´ ainda gosta do homem de Chico da mesma canção, acho que essa discussão não gera dúvida quando ela diz: "Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim".
O que, juntando com o fato de ela dar satisfações a ele, retira qualquer dúvida.
Ouvindo esta canção com calma dá a sensação de que, para aquela mulher, aquele casal poderia ser muito feliz, mas como ele a deixou, ela seguiu a vida dela e foi feliz mesmo sem ele.
É uma música bem realista, no meu entender, pois significa que uma pessoa não depende de outra assim como precisamos do ar pra respirar!
É como se, naquela música, ela deixasse claro que está bem, ´refeita´ (como classificou) e até mais bonita - mas ela continua vivendo com a certeza de que seria feliz do lado dele, e, ao mesmo tempo, relativamente decepcionada por ele não sentir o mesmo!
Falei (escrevi) alguma besteira???
Nenhuma besteira, mas confesso que minha interpretação é outra. Acho que ela usa da ironia pra se mostrar superior, e acho que as satisfações são um pretexto pra um desabafo, pra 'alfinetar' o cara, pra fazer com que ele sinta o que ela já sentiu um dia... Bem, isso levaria a outro post, vamos deixar pra uma próxima conversa etílica... ;)
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