
Imagem: Recife Antigo, do JC ONLINE.
Quem vos fala é uma retirante nordestina. Claro, com alguns privilégios: não vim de pau de arara (se bem que os aviões da Gol não diferem muito de um), nem tenho me dedicado a um trabalho tão extenuante... Mas saí de minha terra em busca de trabalho, como tantos outros conterrâneos. Após frustrar todas as expectativas de emprego na iniciativa privada, resolvi finalmente (e para o alívio de meus pais) "estudar pra concurso". Engraçado os rumos que a vida da gente toma, inesperadamente...
Dedicar-se a tal atividade é algo quase folclórico, na minha modesta opinião. Quem já fez cursinho preparatório certamente observou algumas figuras caricatas, que aparentam permanente ansiedade e proferem um monótono discurso monotemático. Imagino que tenha adquirido traços de concurseiro no breve tempo em que exerci a atividade, mas não tenho instinto para assumir essas características permanentemente. Consegui um emprego público em tempo bem menor que o passado em busca de posição na iniciativa privada, e cheguei à conclusão de que foi uma escolha acertada. Pretendo continuar galgando novos cargos na administração pública, melhor remunerados e com maiores perspectivas... Enquanto isso, aguardo tal oportunidade em novas e estranhas terras.
Até chegar em Brasília, passei uns tempos em São Paulo, Rio e Salvador. Cada cidade tem suas peculiaridades, mas Brasília é um caso à parte. Qual outra cidade nomeia suas ruas com siglas e a divide em setores? A sopa de letrinhas torna-se cômoda após o entendimento da lógica do plano, é uma das coisas que me agradam aqui. O que não evita confusões quando preciso informar meu endereço a alguém que desconhece a cidade... E os setores, esses são extremamente interessantes... Após descobrir que existe um Setor de Áreas Isoladas, nada mais surpreende. Brasília também me agrada por suas vias largas (apesar de barbeiros e pardais), seu céu amplo, pela diversidade das pessoas (tantos outros retirantes, nordestinos ou não). Como qualquer outra cidade, tem suas vantagens e desvantagens... Já me perdi diversas vezes nas tesourinhas e nas quadras residenciais sem saída... Mas gosto daqui, especialmente da vista do trabalho, que apesar de esconder tanta coisa suja não deixa de ser bela. O grande defeito de Brasília é a distância do Recife...
O Recife não passaria de uma cidade violenta e suja, não fora o lirismo que emana. Sou parcial, todos sabem. O lirismo também é parcial, sempre. Meu Recife não é o mesmo de Manuel Bandeira, de Ascenso Ferreira, de João Cabral, Joaquim Cardozo ou Pena Filho; às vezes, nossos Recifes coincidem e os deles continuam a me tocar profundamente. Mas o meu Recife é só meu, surgido das minhas visões, sensações e percepções, surgido da minha vivência. O meu Recife respira cultura, diversidade e cores. O meu Recife soa continuamente, uma melodia que ora embala, ora causa inquietude. O meu Recife fervilha de gente no Mercado de São José, que cheira a temperos fortes, peixes e carnes cruas, couro de chinelas, palha de chapéus e bebidas indefinidas. O meu Recife são os tambores do Antigo, todos os sábados e domingos. O meu Recife é o sol, o mormaço, o suor e a chuva. O meu Recife começa na praia, é cruzado por rios e rodeado de manguezais onde fincaram um antena e cantaram o moderno e o tradicional. Mas o Recife mais propriamente 'meu' é o Recife de minhas referências, das casas que frequentava quando criança, das pessoas que me guiaram e acompanharam por tantos anos... Parti do Recife assim como um retirante, que parte em busca de melhores perspectivas, mas deixando o coração na terra natal e sonhando em voltar um dia, talvez... Ainda não sei se vou voltar em definitivo. Mas para recargas afetivas, definitivamente voltarei.
Sou do Recife com orgulho e com saudades... Recife mandou me chamar, então devo voltar a escrever apenas nas cinzas. Bom Carnaval a todos!
Recomendação de hoje: Evocação do Recife, Manuel Bandeira.

Imagem: Itamaraty, de André Brito, obtida no site do IPHAN.
Não vou comentar este post, pois só em ver estas fotos, já fico louca de saudade.
ResponderExcluirE como diria minha amiga Clarice (Lispector) - "Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem".