quarta-feira, 21 de abril de 2010

O que Narciso acha feio

Há uma coisa que me irrita. Na verdade, não apenas uma, mas esta me ocorreu agora. Acho até que posso ser, em algumas ocasiões, facilmente irritável... Noutras, extremamente paciente. Bem, isso não é relevante no momento. O fato é que me irritam os Narcisos. Principalmente, os velados.

Narciso (1594-1596), por Caravaggio.

Para muitos, aceitar as diferenças é um exercício praticamente impossível - ou, possivelmente, impraticado mesmo. Os Narcisistas explícitos, aqueles que se admiram ao espelho sem pudores e denunciam eles próprios a sua vaidade, não incomodam tanto. Sua presunção é notória, ame-os ou sinta pena. Porém, há pessoas de vida tão vazia que seu maior prazer é a crítica ao outro. O outro, tudo o que não o reflete, tudo o que é diferente. Considero esta uma forma velada de Narcisismo, pois a crítica ao que é distinto implica na aceitação apenas do que é próprio àqueles seres. Cabe esclarecer, não sugiro que tudo deva ser aceito ou admirado. Mas não compreendo aqueles que julgam pelo prazer de julgar, que tecem considerações jocosas, deixando implícito como são perfeitos e belos. Ridículo e irritante.

Não serei hipócrita, por vezes também critiquei e julguei. Mas procuro sempre compreender antes, ver a beleza que há na diferença, em crenças verdadeiras, em estilos de vida distintos do meu. Ridicularizar simplesmente, não me apetece. Qual a graça? Por isso, fujo dos textos de Diogo Mainardi. Também fujo de pessoas de mentalidade preconceituosa, limitada - apesar de saber que todos temos essas características em algum grau, procuro me manter em temperaturas mais amenas. Pessoas pretensamente revolucionárias, rebeldes com tudo que vai além do seu cotidiano, ainda que seu cotidiano seja dinâmico e variado - afinal, o que há de errado com alguma monotonia?

Procuro assimilar o que vejo de positivo nas divergências, no tradicional e no iconoclasta, no feio e na beleza que nele há (pois, frequentemente, há), na fé e em sua ausência, no simples e no complexo, no cotidiano e no extraordinário. Portanto, tento inclusive achar graça de algum leve Nascisismo, velado mas inocente em seus propósitos... Um tanto contraditório, mas possível. Uma pequena dose de Narsicismo é auto-defesa, manutenção da identidade, assume relevância. O que incomoda mesmo é o extremismo, a não aceitação do diverso, principalmente o extremismo encoberto. Para mim, vem à tona, escancarado, cortando olhos e ouvidos.

Um comentário:

  1. Isso é uma inteligência. Chama-se: Inteligência interpessoal - habilidade de compreender os outros; a maneira como eles agem e aceitar conviver com o outro.

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